terça-feira, 11 de setembro de 2018

Beyond The Black rainbow – Ode Ao Estilo



Raramente um filme dispõe de total liberdade. Apesar de frequentemente existir uma independência criativa, estes são muitas vezes moldados à vontade do dinheiro, tempo ou até mesmo reprimidos por um certo medo de arriscar. Quando se concebe algo muito pessoal, é sempre difícil brotar essa ideia num mundo que geralmente se apresenta ignóbil e cruel a perspectivas mais ambiciosas.


“Beyond The Black Rainbow” não sofre restrições, é idealizado pela paixão e desprovido de quaisquer escrúpulos. Conduz o visualizador numa viagem psicadélica, espirituosa e, acima de tudo, estilosa. Como seria de esperar de um filme que prioriza as perceções visuais e auditivas, o enredo é bastante simples. O instituto Arboria, fundado nos anos 60, tinha como objetivo principal encaminhar os humanos a um novo patamar que reconciliaria a ciência e espiritualidade, alcançando assim o supra-sumo da felicidade. Duas décadas depois, mais precisamente em 1983 (ano em que decorre o filme), é percetível a dissimulação dessas boas intenções. Elena, possuidora de peculiares poderes psíquicos, é observada de perto pelo excêntrico doutor Nyle através de regulares terapias. 


“Beyond The Black Rainbow” faz questão de salientar as influências provenientes dessas duas épocas. Retrata a efusiva busca pelos limites da mente humana, e uma procura pela felicidade pós-guerra caraterística dos anos 60. Como também assenta os seus pilares num estilo psicadélico acompanhado por maravilhosos sintetizadores, algo que muitos associam de forma nostálgica aos anos 80. A música é a principal responsável pela excelente e singular atmosfera do filme. As ondas sonoras, provocadas essencialmente por sintetizadores, trespassam elegantemente a sobriedade dos sentidos, por vezes é ameaçadora e assustadora, por outras chega a ser calma e futurista. Complementa de forma inteligente os arrojados planos e efeitos visuais.


Existe uma analepse apresentada numa audaz direção artística, onde o filme exibe uma sequência lunática, e de certa forma bastante criativa, que procura pintar o estado de espírito de uma droga clarividente e transcendente. É muito interessante! Não consigo deixar de me sentir grato pela existência de realizadores como Panos Cosmatos que possuem a ousadia de realizar filmes que acima de tudo preferem mostrar ao espectador o seu mundo, em vez de os contarem através de ricos e sumptuosos guiões. Vários graus de iluminação, tons de cores florescentes, cenários futuristas, atrevidas escolhas artísticas… Beyond The Black Rainbow é uma ode ao estilo, e apesar das suas lacunas ao nível do enredo, satisfaz por aquilo que é.

Liberdade criativa totalmente fora de controlo.



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