Raramente um filme dispõe
de total liberdade. Apesar de frequentemente existir uma independência
criativa, estes são muitas vezes moldados à vontade do dinheiro, tempo ou até
mesmo reprimidos por um certo medo de arriscar. Quando se concebe algo muito
pessoal, é sempre difícil brotar essa ideia num mundo que geralmente se
apresenta ignóbil e cruel a perspectivas mais ambiciosas.
“Beyond The Black
Rainbow” não sofre restrições, é idealizado pela paixão e desprovido de
quaisquer escrúpulos. Conduz o visualizador numa viagem psicadélica,
espirituosa e, acima de tudo, estilosa. Como seria de esperar de um filme que
prioriza as perceções visuais e auditivas, o enredo é bastante simples. O
instituto Arboria, fundado nos anos 60, tinha como objetivo principal
encaminhar os humanos a um novo patamar que reconciliaria a ciência e
espiritualidade, alcançando assim o supra-sumo da felicidade. Duas décadas
depois, mais precisamente em 1983 (ano em que decorre o filme), é percetível a
dissimulação dessas boas intenções. Elena, possuidora de peculiares poderes
psíquicos, é observada de perto pelo excêntrico doutor Nyle através de
regulares terapias.
“Beyond The Black Rainbow” faz questão de salientar as influências provenientes dessas duas épocas. Retrata a efusiva busca pelos limites da mente humana, e uma procura pela felicidade pós-guerra caraterística dos anos 60. Como também assenta os seus pilares num estilo psicadélico acompanhado por maravilhosos sintetizadores, algo que muitos associam de forma nostálgica aos anos 80. A música é a principal responsável pela excelente e singular atmosfera do filme. As ondas sonoras, provocadas essencialmente por sintetizadores, trespassam elegantemente a sobriedade dos sentidos, por vezes é ameaçadora e assustadora, por outras chega a ser calma e futurista. Complementa de forma inteligente os arrojados planos e efeitos visuais.
Existe uma analepse apresentada numa audaz direção artística, onde o filme exibe uma sequência lunática, e de certa forma bastante criativa, que procura pintar o estado de
espírito de uma droga clarividente e transcendente. É muito interessante! Não
consigo deixar de me sentir grato pela existência de realizadores como Panos
Cosmatos que possuem a ousadia de realizar filmes que acima de tudo preferem
mostrar ao espectador o seu mundo, em vez de os contarem através de ricos e
sumptuosos guiões. Vários graus de iluminação, tons de cores florescentes, cenários
futuristas, atrevidas escolhas artísticas… Beyond The Black Rainbow é uma ode
ao estilo, e apesar das suas lacunas ao nível do enredo, satisfaz por aquilo
que é.
Liberdade criativa
totalmente fora de controlo.


Sem comentários:
Enviar um comentário