segunda-feira, 30 de julho de 2018

"O Meu Maior Desejo" - A Desintegração da Infância



Quando “O Meu Maior Desejo” foi lançado em 2011, já ninguém duvidava nas capacidades de Hirokazu Koreeda para realizar um filme sobre emoções humanas em seio familiar. Essa é claramente a sua assinatura. Nesse aspecto, nada de novo acontece neste filme pois todo o argumento gira em volta de uma família, destacando a relação entre dois irmãos (Koichi e Ryunosuke). O que me faz gostar deste filme em particular, é que apresenta um carácter sonhador e nostálgico. A sua pureza é edificante, e transparece a ingenuidade inocente de crianças que a certa altura terão de crescer, perdendo assim essa particularidade. Será esse momento uma continuidade de circunstâncias? Ou poderá ser definido num só instante? Acredito que este filme apresenta a segunda hipótese, numa reviravolta tão brilhante e subtil como natural e bonita.
A ideia de que é possível pedir um desejo quando dois comboios se cruzam a alta velocidade ficou entranhada na cabeça de Koichi. O seu maior desejo, é que a sua família se volte a juntar. Koichi vive com a mãe em Kagoshima, enquanto que o seu irmão Ryunosuke vive com o pai em Fukuoka. Apesar de Ryunosuke estar incerto quanto a uma reunião familiar, aceita o desafio. Ambos juntam os seus melhores amigos, recolhem dinheiro, e partem numa viagem de reencontro com um objetivo em comum. Pedir um desejo.

Embelezar os pequenos momentos do quotidiano, continua a ser uma das artes de Koreeda. Como de costume, o filme é muito bem realizado, e realça os encantos e desencantos da simples complexidade da vida. É recheado de pequenos grandes momentos que no seu conjunto ajudam no culminar e realização da reviravolta. O crescimento das crianças vai-se fazendo notar ao longo do filme, em pequenos comentários, perceções e ações que mais tarde explodem numa transformação interior. As personagens adultas manifestam problemas frívolos de realidades tristes que contrastam com os desejos sonhadores dos mais novos, que à força do milagre querem as suas vontades realizadas.
O último terço do filme abarca numa viagem de espírito aventureiro. Os dois grupos tentam encontrar o melhor local para expor os seus desejos. Não deixa de ser engraçado o facto de eles andarem sempre na correria de um lado para o outro, por vezes de forma desajeitada e com grandes mochilas às costas.


No momento do desejo, Koichi faz uma retrospetiva da sua vida que é representada numa série de planos simples e belos, muitos deles apresentam objetos que tiveram uma importância aparentemente não muito relevante no desenvolvimento do filme, mas que aqui ostentam um grande valor de introspeção e realização. Koichi tem uma boa vida, e o seu desejo é egoísta. Talvez seja melhor deixar as coisas seguirem o seu rumo. Esta sequência de planos é acompanhada por uma bela melodia de guitarra acústica que complementa o momento. Este é o instante que demonstra crescimento, e é tratado de uma forma brilhante e subtil. Durante a sequência também aparece uma série de fotos que demonstram a felicidade dos dois irmãos quando eles viviam juntos, interpreto estas fotos como uma despedida. O adeus à infância, e com ela também se desintegra a inocência. Tudo isto, é complementado na perfeição pela conversa de despedida entre Koichi e Ryunosuke. Nenhum deles pediu como desejo a reunião familiar, contudo, ambos entendem, com poucas palavras, que talvez seja melhor assim. A partir daquele momento, todas as crianças aparentam ter uma atitude diferente na interpretação dos seus desejos e nos meios para os alcançarem. Perseguem agora os seus sonhos, sem milagres.

E assim desenrolam-se as suas vidas.




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