Já há algum tempo que conheço o trabalho de William Basinski. No entanto, houve um longo período de tempo em que me esqueci dele e da sua música. Certo dia, vinda dos cantos profundos da minha mente, ouço uma melodia. Não a reconheci imediatamente, mas era-me familiar. Esta acabou por se enterrar de novo sem que eu a descobrisse. Porém, a mensagem ficou, e eu sabia que a reconheceria se a ouvisse de novo.
A melodia pertence a dlp 1.1, uma das faixas de "Desintegration Loops".
É apenas uma música de 1 hora e 3 minutos que repete um
trecho de poucos segundos repetidamente. Só que tal como o nome o diz, esta
melodia desintegra-se à medida que o tempo vai passando.
Há algo de especial acerca desta música. Era suposto ser uma
tremenda chatice. Afinal, qual é a piada de repetir sempre a mesma coisa
durante uma hora? Mas não o é. Aliás, tem o efeito contrário, e atira-me para
as suas infinitas rotações. Delas não consigo sair, fico preso a um encanto.
Não sei o que há nestes pedaços de som que se podem
prolongar na eternidade. Sempre que me encontro a ouvir estes ruídos, não os
quero desligar, quero que eles se alonguem. É mesmo uma força física que me
impede. Talvez, quem sabe, devido ao medo de que tudo acabe se o fizer.
Trata-se de desintegração, mas acaba por me envolver num
sentimento de integração. Tanto que quando o fim chega, deparo-me com um
silêncio incómodo. Algo está errado. Falta-me a melodia familiar e
acolhedora que ondulava pelo meu cérebro. E sinto-me tão só, tão solitário como
nunca estive. Faz-me pensar no meu fim, e no de toda a gente. Mas de uma forma
bela.
Provoca-me o transe que por vezes procuro, e consigo ver beleza
nisso.

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