Cult Of Luna
«Somewhere Along The Highway
[Earache, 2006]
Desperto de
um sonho muito estranho, e sinto areia nos lábios, aos poucos vou tomando
consciência do que se passou, o navio, os gritos, a água a perfurar os pulmões.
Olho em redor e encontro diante de mim uma ilha, deserta aparentemente. Mais à
frente na areia encontra-se uma mala, a mala de viagem que naufragou comigo,
dirijo-me até ela e reparo que se encontra aberta, o oceano tudo levou excepto
o meu velho mp3 e os respectivos fones que se tinham protegido num bolso
impermeável. Pelo menos terei muita música como companhia, penso, mas logo me
apercebo que por falta de tempo apenas tinha colocado um álbum na biblioteca o
“Somewhere Along The Highway” dos Cult Of Luna. Assim seja, digo em voz
alta para mim, vamos explorar a ilha juntos. Coloco os fones e começo a andar.
A suave “Marching To The Heartbeats” irrompe na
minha cabeça, sinto esperança acima de tudo, agora que observo melhor o que me
rodeia, uma ilha paradisíaca como esta nunca traz sentimentos infelizes, alguma
solidão talvez mas acima de tudo felicidade.
Chego ao fim
da praia, observo com algum medo uma densa selva, é neste momento que os meus
ouvidos reconhecem a “Finland”,
mudança de ritmo, maior perigo. Ganho coragem e embrenho-me na selva.
Inicialmente caminho um pouco desconfortável, a música apercebe-se disso e
solta uns riffs e uns “vocais” mais violentos de quem se impõe sobre o perigo
ainda que com receio, no entanto deixa lacunas com algumas das melhores
melodias que alguma vez ouvi, onde me é permitido apreciar a maravilha e
complexidade desta selva, perigosa mas linda.
Passa-se
algum tempo e finalmente chego ao fim deste mar verde, começa a anoitecer, à
minha frente surge um pequeno prado com uma extensão de erva alaranjada devido
ao crepúsculo, é neste momento que decido fazer uma pequena fogueira com a
ajuda de um pequeno isqueiro (que milagrosamente tinha sobrevivido no meu
bolso) para passar a noite mais confortável. “Back To The Chapel Town” começa a tocar, fico sentado à luz da
fogueira apenas ouvindo a música e a apreciar o pôr-do-sol, ótima escolha,
música poderosa em crescendo que me dá coragem para enfrentar a noite mas
também contemplar a sua vinda, posto isto não tive dificuldades em adormecer,
“away from pain, away from everything”.
Acordo e
ainda é de noite, a primeira coisa que faço é dar continuidade ao álbum nos
meus ouvidos. É a vez de “And With Her
Came The Birds” entrar em cena, sinto melancolia e uma solidão diferente da
de que sentia quando cheguei à ilha, desta vez abate-se sobre mim em forma de
desespero, sinto fome e começo a desesperar pela primeira vez. A música goza
comigo lenta sente todos os meus sentimentos e apodera-se deles subtilmente,
mas não é o fim, penso para mim, ainda há caminho a percorrer.
“Thirtyfour” entra de rajada como se
nada tivesse acontecido, é neste momento que chego a um pequeno riacho com uma
cascata, não muito longe em frente o terreno começa a subir na direcção de uma
grande falésia que suponho que seja o fim da ilha. Fico sentado numa rocha por
momentos a ouvir a música e a observar a cascata. Tudo se abate sobre mim, a
água, a vida, a música… esta não tem piedade, parece que nos esmaga, mas eu
gosto, o meu corpo sente-se esmagado mas a minha alma em paz, maravilhosa para
o espirito, má para o físico tal como uma cascata. É sem dúvida feia por fora
mas linda por dentro esta “Thirtyfour”,
precisou de alguma insistência mas entrou, e de que maneira.
Começo a
subir já com a “Dim” a tocar, mais
bela do que as anteriores, esta deu-me forças na sinuosa escalada, violenta nas
zonas mais ingremes, perspicaz nas zonas mais difíceis, e bela nas alturas mais
fáceis, quando a música calmamente se prepara para finalizar já eu vejo o
horizonte “From the skyline dark clouds move in”. Alcanço o final da subida e o
início do precipício, ouço a “Dark City,
Dead Men” sempre no mesmo sítio, 16 negros minutos, mas belos também, assim
o é todo o álbum, melódico, negro, belo, agressivo, introspetivo… sou um homem
morto numa ilha deserta, acaba-se uma das músicas da minha vida, um dos álbum
da minha vida, a minha vida. Olho para baixo… “This will be the end of me”.

Sem comentários:
Enviar um comentário