domingo, 25 de outubro de 2015

Ilha Deserta: Cult Of Luna «Somehere Along The Highway»

Deixo-vos aqui a minha participação na rubrica Ilha Deserta da revista LOUD!, em que eles pedem aos leitores para escolherem o disco que levariam para uma ilha deserta e explicarem porquê, eu resolvi pegar nisto e fazer uma pequena história que se enquadra com o tema desta rubrica. Este texto foi publicado na edição de Setembro de 2015.



Cult Of Luna

«Somewhere Along The Highway
[Earache, 2006]

Desperto de um sonho muito estranho, e sinto areia nos lábios, aos poucos vou tomando consciência do que se passou, o navio, os gritos, a água a perfurar os pulmões. Olho em redor e encontro diante de mim uma ilha, deserta aparentemente. Mais à frente na areia encontra-se uma mala, a mala de viagem que naufragou comigo, dirijo-me até ela e reparo que se encontra aberta, o oceano tudo levou excepto o meu velho mp3 e os respectivos fones que se tinham protegido num bolso impermeável. Pelo menos terei muita música como companhia, penso, mas logo me apercebo que por falta de tempo apenas tinha colocado um álbum na biblioteca o “Somewhere Along The Highway” dos Cult Of Luna. Assim seja, digo em voz alta para mim, vamos explorar a ilha juntos. Coloco os fones e começo a andar.

A suave “Marching To The Heartbeats” irrompe na minha cabeça, sinto esperança acima de tudo, agora que observo melhor o que me rodeia, uma ilha paradisíaca como esta nunca traz sentimentos infelizes, alguma solidão talvez mas acima de tudo felicidade.

Chego ao fim da praia, observo com algum medo uma densa selva, é neste momento que os meus ouvidos reconhecem a “Finland”, mudança de ritmo, maior perigo. Ganho coragem e embrenho-me na selva. Inicialmente caminho um pouco desconfortável, a música apercebe-se disso e solta uns riffs e uns “vocais” mais violentos de quem se impõe sobre o perigo ainda que com receio, no entanto deixa lacunas com algumas das melhores melodias que alguma vez ouvi, onde me é permitido apreciar a maravilha e complexidade desta selva, perigosa mas linda.

Passa-se algum tempo e finalmente chego ao fim deste mar verde, começa a anoitecer, à minha frente surge um pequeno prado com uma extensão de erva alaranjada devido ao crepúsculo, é neste momento que decido fazer uma pequena fogueira com a ajuda de um pequeno isqueiro (que milagrosamente tinha sobrevivido no meu bolso) para passar a noite mais confortável. “Back To The Chapel Town” começa a tocar, fico sentado à luz da fogueira apenas ouvindo a música e a apreciar o pôr-do-sol, ótima escolha, música poderosa em crescendo que me dá coragem para enfrentar a noite mas também contemplar a sua vinda, posto isto não tive dificuldades em adormecer, “away from pain, away from everything”.

Acordo e ainda é de noite, a primeira coisa que faço é dar continuidade ao álbum nos meus ouvidos. É a vez de “And With Her Came The Birds” entrar em cena, sinto melancolia e uma solidão diferente da de que sentia quando cheguei à ilha, desta vez abate-se sobre mim em forma de desespero, sinto fome e começo a desesperar pela primeira vez. A música goza comigo lenta sente todos os meus sentimentos e apodera-se deles subtilmente, mas não é o fim, penso para mim, ainda há caminho a percorrer.

Thirtyfour” entra de rajada como se nada tivesse acontecido, é neste momento que chego a um pequeno riacho com uma cascata, não muito longe em frente o terreno começa a subir na direcção de uma grande falésia que suponho que seja o fim da ilha. Fico sentado numa rocha por momentos a ouvir a música e a observar a cascata. Tudo se abate sobre mim, a água, a vida, a música… esta não tem piedade, parece que nos esmaga, mas eu gosto, o meu corpo sente-se esmagado mas a minha alma em paz, maravilhosa para o espirito, má para o físico tal como uma cascata. É sem dúvida feia por fora mas linda por dentro esta “Thirtyfour”, precisou de alguma insistência mas entrou, e de que maneira.

Começo a subir já com a “Dim” a tocar, mais bela do que as anteriores, esta deu-me forças na sinuosa escalada, violenta nas zonas mais ingremes, perspicaz nas zonas mais difíceis, e bela nas alturas mais fáceis, quando a música calmamente se prepara para finalizar já eu vejo o horizonte “From the skyline dark clouds move in”. Alcanço o final da subida e o início do precipício, ouço a “Dark City, Dead Men” sempre no mesmo sítio, 16 negros minutos, mas belos também, assim o é todo o álbum, melódico, negro, belo, agressivo, introspetivo… sou um homem morto numa ilha deserta, acaba-se uma das músicas da minha vida, um dos álbum da minha vida, a minha vida. Olho para baixo… “This will be the end of me”.

domingo, 27 de setembro de 2015

Top 5 Concertos Amplifest 2015




Mais um Amplifest que chega ao fim, admito que tem sido difícil voltar ao "mundo real" mas penso que me estou a adaptar bem. Para me ajudar a aclimar decidi escrever acerca dos cinco concertos que mais me marcaram e agradaram. Acreditem que escolher apenas cinco foi mais complicado do que parece.

#5 Syndrome


Acredito que não seja uma escolha unânime, mas na minha opinião merece este lugar. Ver e ouvir a "Now And Forever" ser interpretada na integra delicadamente por Mathieu Vandekerckhove foi inspirador. Os visuais criados por Sander Vandenbroucke especialmente para esta música são fenomenais, consequentemente o resultado é uma combinação auditiva e visual não só encantadora e bucólica mas também negra. Junta-se isto tudo, e estão reunidos todos os ingredientes para criar um ambiente reconfortante e pacifico. Um concerto que nos faça sentir assim é, e sempre será, um bom concerto.

#4 Wiegedood



Admito que não ia com grandes expectativas para este concerto, mas agora sei que não tinha razões nenhumas para isso. Wiegedood foi um murro no estômago, que saudades tinha de um ritual de black metal puro e em condições, daquelas colunas brotaram potência e agressividade suficientes para me aquecer o coração e deixar um sorriso na cara. Os malhões de "De Doden Hebben Het Goed" ganharam uma dimensão imensa que quase não cabiam na sala. Ao vivo estes temas apoderaram-se de uma nova vida, e se juntarmos a qualidade do som com a actuação irrepreensível da banda... Não se pode pedir muito mais.

#3 Converge



Quem conhece os concertos de Converge sabe para o que vai, isso mesmo, para a destruição total, mas para uma daquelas agradáveis claro. Houve tanta coisa a acontecer, uns estavam no moshpit, outros a atirar-se do palco, e ainda houve quem agarra-se o microfone e cantasse todos os refrões em plenos pulmões. A entrega da banda foi fenomenal como sempre, são eles que permitem que isto tudo aconteça. A ligação com o publico é muito especial e humilde, vê-se a léguas que eles são apaixonados por aquilo que fazem. Isto faz com que os concertos de Converge sejam únicos, e o do Amplifest não foi excepção, malhas como "You Fail Me" ou "Worms Will Feed/Rats Will Feast" ajudam a festa ser um sucesso, e como não podia deixar de ser, a cereja no topo do bolo com "Jane Doe".

#2 Altar Of Plagues


Ok, assumo que talvez seja um bocado suspeito nesta escolha, visto que Altar Of Plagues é uma das minhas bandas favoritas, e sabendo que pode ter sido a última vez que os vi ao vivo ainda torna o concerto duplamente especial. Mas não pensem que este lugar é uma cunha monstruosa, pois a performance deles foi de uma execução eximia, diria mesmo a roçar a perfeição. O meu corpo na maior parte do tempo estava todo arrepiado, principalmente em músicas como "Twelve Was Ruin", "Scald Scar Of Water" ou " Feather And Bone" que ao vivo têm uma transcendência que não consigo explicar, só estando presente. O trabalho de luzes também foi extraordinário. Obrigado Altar Of Plagues e Amplifest por esta ultima oportunidade.

#1 Amenra



Não consegui dar aos Amenra um lugar que não fosse o primeiro, penso que ninguém independentemente dos seus gostos e opiniões ficaria indiferente a um concerto destes senhores. É como assistir a um ritual em que o objectivo é-nos esmagar o corpo preservando a alma, e nós completamente impotentes estamos absolutamente devotos. A maneira de estar em palco de Colin H. Van Eeckhout é única em todo o universo musical, e o comportamento dos outros membros da banda gira em torno do vocalista. A intensidade foi brutal e quando a coisa acalmou ficou um ambiente frio e fúnebre, o mais impressionante de tudo, é que eles não precisaram de dizer uma única palavra ao público para criarem uma conexão intensa e uma relação especial. Mas não fica por aqui, pois ainda temos os trabalhos visuais e de luzes que são deslumbrantes e pensados ao pormenor. Foi o melhor concerto que vi nesta edição do Amplifest e um dos melhores que alguma vez vi. Se tiverem oportunidade de os ver não pensem duas vezes, tentem apenas não sufocar.


Para concluir queria apenas dizer que o Amplifest é sem sombra de dúvidas uma experiência única para quem gosta destas andanças. Vejam lá que houve uma altura em que olho para o corredor principal e vejo Gilles Demolder (Wiegedood) a conversar com o pessoal de uma banca, o Nate Hall e alguns membros dos Grave Pleasures à beira do bar numa conversa animada, o James Kelly (Altar Of Plagues; Wife) a conversar ao fundo com uns fãs, e ainda o Mories (Gnaw Their Tongues) a imitar um pinguim a andar para alegrar os seus amigos enquanto levava os cds para a sua banca. Este tipo de ambiente não se paga, é especial e único. Estes são dois adjectivos que definem muito bem o Amplifest.